Notas sobre o registro do conhecimento humano

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Há pouco mais de dois séculos, intelectuais franceses devidamente trajados com suas indefectíveis calças leg e longas perucas brancas se lançavam à hercúlea tarefa de encerrar numa obra de trinta e cinco volumes, intitulada Encyclopédie, todo o conhecimento humano. A iniciativa dos supracitados intelectuais franceses foi seguida por estrangeiros, igualmente intelectuais, e daí surgiram essas coleções volumosas que se encontram em bibliotecas públicas e privadas. Minha juventude pré-internet foi muito pontuada por consultas à enciclopédias, especialmente à Larousse.

É de conhecimento geral que tem gente que compra livros para enfeitar a casa. Nesses casos, as enciclopédias são ideais, por sua coloração uniforme, pela quantidade de páginas muito semelhante de um volume para outro e pela simetria física. Mas cuidado: a inutilização de uma enciclopédia tem alto preço. Enciclopédias são voluntariosas. Se não lhes forem dadas acomodações adequadas, madeira e aço fortes o bastante para sustentá-las, boa ventilação etc, elas são capazes de envergar, trincar, rachar e quebrar o mau espaço em que foram alocadas, além de tornarem-se permissivas para com fungos, traças, baratas, ratos e demais criaturas que todos gostamos de ver bem longe.

Com o advento da internet, a procura por enciclopédias sofreu grande baixa. Depois, com o advento da Wikipédia, nem se fale. Quanto aos números exatos que comprovam o que digo, não os tenho, por isso você vai ter que acreditar no que digo. Ou melhor, ao terminar de ler este texto abra uma janela do seu navegador de internet preferido, digite no Google um assunto qualquer de seu interesse, e taí a comprovação. Duvido que entre os milhões de sites encontrados não haja pelo menos um link para a Wikipédia.

Lançada em 15 de janeiro de 2001, a Wikipédia veio propondo a democratização do conhecimento através da possibilidade de pessoas comuns, não necessariamente intelectuais, fazerem parte da elaboração de uma obra com o mesmo intuito das enciclopédias: concentrar todo o conhecimento humano.

As diferenças entre a enciclopédia em suporte material e a Wikipédia começam na etimologia. A palavra enciclopédia vem do grego antigo, da junção entre enciclo-, que significa “geral”, e -paidéia, que significa “conhecimento”. Por outro lado, Wikipédia une o prefixo havaiano “wiki-wiki”, que quer dizer “rápido”, ao -paidéia já referido acima, ou seja, enquanto a enciclopédia convencional se restringe a concentrar o conhecimento e a revisá-lo e atualizá-lo, em geral, anualmente, a Wikipédia busca maior velocidade no registro do mesmo, virando uma espécie de enciclopédia que se atualiza em tempo real.

Segundo o verbete sobre a Wikipédia na Wikipédia, o projeto já conta com mais de 7,5 milhões de verbetes e com disponibilidade em 257 línguas e dialetos. É de encabular qualquer Britannica. Contudo, esses números têm alguns revezes. Nem tudo que está na Wikipédia é confiável, e há furos em muitos verbetes, incompletude, informações falsas e outras coisas. É natural que isso aconteça, afinal, apesar de atualmente todos podermos ser enciclopedistas, ou melhor, wikipedista, nem todos temos aptidão para tal. E outra: de gente mal intencionada, afim de deturpar o projeto, todos sabemos, a internet está cheia.

Essa cria das antigas e cada vez mais olvidadas enciclopédias tem potencial para tornar-se patrimônio tombado da humanidade, porque é um bem público e extremamente democrático. E que as falhas que encontrarmos nos verbetes da Wikipédia desenvolvam o nosso senso crítico e espírito investigativo. Para isso, vale confrontarmos as informações da Wikipédia com as que se encontram nas enciclopédias em vias de decomposição, porque nelas sim podemos crer sem grandes receios.

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