ago 08
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Tecnologia por Renato Capella
(ou A razão de não termos garras e dentes afiados)
Do Méier o Guru define o ser humano: “Um bípede inviável”. E eu rebato com a afirmação: “A tecnologia viabiliza o ser humano”. Não fossem os porretes, as armas brancas, os revólveres, as pistolas 9 milímetros, o AR-15 e outros utensílios domésticos similares, e mais as roupas, o fogo, a roda e demais incrementos primitivos, ainda estaríamos indo dormir com medo do frio e dos espasmos estomacais de algumas espécies da fauna terrestre.
A tecnologia nos viabiliza e a comunicação nos potencializa, do galanteio virtual ao contato com alienígenas, ou pelo menos a tentativa de. O antigo sinal de fumaça viaja hoje através de fibra ótica em velocidade estonteante e é conduzido aos semicondutores que levam tal sinal aos nossos olhos e ouvidos, mas, graças aos milagres da informática, livre do monóxido de carbono, porque deste já basta a quantia que respiramos na rua. Agora, reflitam comigo: se as centenas de milhões de internautas ainda estivessem a enviar sinais de fumaça, babau Amazônia. Por outro lado, se Fidípedes tivesse celular, babau maratona.
Reflitam novamente: roda, monóxido de carbono, rua. Falta o quê? Carros, lógico! Quantos, minha Nossa! Veio um cientista outro dia e apresentou um tipo de patinete motorizado, dizendo que essa seria a solução para o trânsito nas cidades. Não discordo, mas questiono: que executivo toparia andar de patinete motorizado? “Não dá pra pôr blindagem em patinete”, ele diria.
A bola cantada pelos autores de ficção científica e por Hollywood, mais cedo ou mais tarde, vira realidade. Me refiro às histórias sobre computadores voluntariosos e irascíveis. Então, de gênios da literatura e do cinema, Arthur Clarke e Stanley Kubrick passarão a profetas, pois não há rédea para a tecnologia. Para o ser humano, sim. Sua rédea é o tempo, que passa, veloz, cada vez mais, desenvolvendo a tecnologia, fazendo com que o nó nas tripas vire neoplasia maligna ou desenvolvimento anômalo de células, e a roupa do homem de neanderthal vire grife em passarelas, e o porrete vire bomba H, e as pedras virem rolos de pergaminho, códices, in folio, in quarto, in oitavo, incesto, cruz credo, e padres lancem cedês, e pessoas se aproximem à distância, e a televisão defina os modos, o falar, o vestir, os bordões e os rumos do país, e o mundo se globalize, e aí?