set 08
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Um pouco sobre cerveja, agricultura e antropologia
O alemão Josef H. Reichholf acaba de lançar seu livro “Warum die Menschen Sesshaft Wurden” (“Por que os Homens se Tornaram Sedentários”, em tradução livre). O biólogo e historiador natural traz neste livro algumas idéias sobre antropologia dos primeiros homens. O que tem tido bastante repercussão na imprensa internacional é sua tese de que o surgimento da agricultura (por volta de 10 mil anos atrás) não veio como uma solução para melhorar ou garantir a segurança alimentar das populações da época, e sim para a produção de bebida alcoólica. Essa bebida, feita a partir da fermentação de grãos originou a nossa tão adorada cerveja.
“Essa visão habitual confunde causas e conseqüências. Para que os caçadores e agricultores abandonassem sua forma de vida e alimentação tradicional teve de acontecer alguma vantagem inicial”, explica, e ressalta que no início “o cultivo de plantas não trouxe consigo nenhuma vantagem sobressalente para a sobrevivência”.
Reichholf acrescenta que as colheitas iniciais eram muito pequenas e o cultivo da terra era muito trabalhoso, o que não garantia a sobrevivência de um povo apenas da agricultura. Ele afirma que o homem neolítico continuou caçando e colhendo para subsistir.
Nesse sentido, classifica igualmente de errada a teoria de que nas primeiras regiões de assentamento sedentário da humanidade, que vão do Egito à Mesopotâmia, havia pouca caça e muita vegetação.
“Era totalmente diferente”, assegura o especialista, que considera que essas regiões eram ricas em caça, por isso não havia necessidade de abandonar essa forma de subsistência, e julga absurda a teoria de que uma região possa ser rica em frutas e pobre em animais selvagens ao mesmo tempo.
“Ao contrário, eu afirmo que a agricultura surgiu de uma situação de abundância. A humanidade experimentou com o cultivo de cereais e utilizou o grão como complemento alimentício. A intenção inicial não era fazer pão com o grão, mas fabricar cerveja mediante sua fermentação”, disse Reichholf à imprensa na apresentação do livro.
O alemão assegura que a humanidade sempre sentiu necessidade de alcançar estados de embriaguez com drogas naturais que “transmitem a sensação de transcendência, de abandono do próprio corpo”, conclui.
Com certeza é um livro bastante interessante, que gostaria de ver nas prateleiras aqui do Brasil, a análise que o autor faz sobre a origem da agricultura humana é instigante para quem se interessa pela área, mas é importante relativizar essas teses, já que provavelmente o desenvolvimento de técnicas agrícolas não se originou de apenas uma população humana, ou mesmo em apenas um continente. Quase todos os povos atuais praticam a agricultura em certo nível e a maioria deles possuem alimentos alcoólicos que geralmente estão ligados a rituais e atividades sociais. É muito importante o estudo dessas populações tradicionais ainda existentes, que podem trazer entendimentos mais básicos da relação do homem com seu alimento, tanto na aquisição quanto no consumo.
Fonte:
Folha Online 09/09/2008