out
04
2008

Ciência e Tecnologia: vilãs, heroínas ou algo mais?

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É com muito orgulho que trago aos leitores do TecnoSapiens um pequeno texto escrito por mim e pela Sandra Fagionato-Ruffino. Produzimos este texto como um trabalho de uma disciplina que cursamos juntos. Leia e diga o que achou. :)

Ciência e Tecnologia: vilãs, heroínas ou algo mais?

Um seriado japonês da década de 70 dizia, em sua abertura: “Planeta: Terra. Cidade: Tóquio. Como em todas as metrópoles deste planeta, Tóquio se acha hoje em desvantagem em sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas venham a se tornar letais para toda e qualquer forma de vida. Quem poderá intervir? Spectreman!!!


Para reavivar a memória dos mais velhos e esclarecer um pouco as coisas para os mais novos, este seriado conta a história de um andróide alienígena que é enviado para a Terra com a missão de nos proteger de um cientista extra-terrestre – o malévolo Dr. Gori, e seu ajudante – o não tão inteligente Karas. O Dr. Gori (uma espécie de homem-macaco), quando chegou ao nosso planeta se assustou com a destruição que os seres humanos estavam provocando em seu ambiente, explorando os recursos naturais e comprometendo o ecossistema em que viviam. Após esta constatação, Dr. Gori resolveu dominar o planeta e transformá-lo em seu paraíso particular.

Para impedí-lo, os Dominantes (uma espécie de ONU interplanetária) enviam o Spectreman. Um fato curioso é que o Dr. Gori utilizava como matéria-prima para a maioria de seus monstros a própria poluição!!!

Esse seriado era ou não era um profeta do nosso tempo?

A ficção da década de 70 está mais atual do que nunca. Precisa apenas de uma melhor contextualização, pois a poluição também entrou na globalização e o mundo não está conectado apenas pela Internet. Hoje a poluição ameaça não apenas Tóquio e as grandes metrópoles do planeta. Até mesmo a pacata e pequena cidade de Borá, – Estado de São Paulo, está em perigo, pois o efeito estufa está em todos os lugares.

A poluição que ameaçava Tóquio advinha do gigantesco crescimento econômico e industrial pós-guerra do Japão. Crescimento impulsionado, em partes, pela ciência e tecnologia. Esta mesma ciência e tecnologia que hoje nos presenteia, com cada vez mais novidades: celulares, computadores, brinquedos, fogões, fornos, carros (com som, alarme, vidro e trava elétrica, DVD…) entre outros. Novidades que enchem os olhos, esvaziam os bolsos e distanciam os seres humanos.

A ciência – que não é candidata a nenhum cargo nestas eleições, vai mais longe, nos prometendo um futuro cada vez melhor: clonagens, alimentos transgênicos, manipulação do código genético, computadores qüânticos e assim vai….

Vivemos um momento de êxtase científico e tecnológico em que não conseguimos identificar novos perigos. Mas, talvez o leitor se pergunte: que outros perigos poderiam nos ameaçar?

Os monstros criados pelo Dr. Gori são uma metafóra à ameaça que a poluição representa para a humanidade, ameaça cada vez mais contundente e real. E por falar em monstros, certa vez, li que é preciso cuidar para que a partir da ciência e tecnologia não criemos um monstro, tal qual o de Frankenstein, que se volte contra o criador. E neste sentido te pergunto, amigo leitor será que já não geramos alguns monstros????

Tomemos como exemplo a questão da fertilização in vitro, que de um lado permitiu – pelo menos aos que podem pagar – a reversão da impossibilidade de procriação, e por outro lado fez-nos alarmar sobre as conseqüências éticas, sócio-culturais, biológicas e psicológicas: qual o destino dos embriões fecundados e não utilizados para concepção? Jogar no lixo? Utilizar em pesquisas genéticas? Comercializar? Doar para outros casais?

No seriado tínhamos um herói para nos proteger. Será que hoje não precisamos de um novo paladino para nos alertar e proteger dos perigos que nos espreitam nos anos vindouros?

Serão a ciência e a tecnologia nossas heroínas que a cada dia buscam novas formas de reverter a situação na qual nos encontramos, como por exemplo, utilizar nossos próprios resíduos como matéria-prima (reciclagem de resíduos sólidos, reuso da água, uso de biogás)? Ou serão as mensageiras da destruição?

Aquilo que ameaça também pode proteger? Hein, o que você me diz?

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Written by Rodrigo in: Homo sapiens, Meio-ambiente, Sociedade | Tags:,

4 Comentários »

  • Diogo disse:

    Hehe, vou me atrever a comentar. No mesmo sentido do que escrevi no meu primeiro artigo acredito que não devemos ter a ciência e a tecnologia como coisas à parte de uma intenção humana, então talvez a questão esteja nessa intenção e não na ferramenta. É importante lembrar também que não é possível generalizar esse “nós” quando falamos em ciência e tecnologia, existe um grupo bem definido de pessoas que é quem controla esses dois instrumentos e esse grupo é minioria e possui interesses particulares.

    Resumindo: nem a ciência nem a tecnologia podem ser vilãs ou heroínas, pois são apenas expressões da vontade do homem.

  • Rodrigo disse:

    Pois então Diogo, como o próprio título do artigo questiona, será que elas não seriam algo mais?

    Sobre os pontos levantados em seu comentário, concordo que alguns grupos sejam privilegiados em termos de ciência e tecnologia, mas não acredito que o restante da população não consiga ter influência nos rumos que a ciência e a tecnologia tomam.

    Como exemplos dessa influência, temos a batalha pela proibição do DDT encabeçada por Rachel Carson (autora de “Primavera Silenciosa”) e os grupos de cidadãos que foram sensíveis aos seus apelos e alertas (dando origem aos movimentos de preservação do ambiente), além de movimentos contrários à construção de usinas nucleares e o armazenamento de resíduos radioativos, a utilização dos CFC’S e ultimamente, a discussão sobre os alimentos modificados geneticamente.

  • Legal saber dessa série japonesa, Rodrigo.

    Quanto à vilania ou heroismo da ciência e da tecnologia, não tenho uma posição estanque. Não desconsidero certos excessos cometidos por ambas, no entanto pensemos em tudo que a tecnologia nos proporciona, ainda que de modo não igualitário. Procuro, por enquanto sem sucesso, ser otimista com relação à tecnologia. Procuro pensar que chegamos num ponto de saturação e que, de agora em diante, essas milhares de ações em prol do meio ambiente vão começar a dar bom resultado. Mas isso é coisa pra longo prazo, pros nossos tataranetos.

    Vocês já assistiram Kooyanisqatsi? Um dia comento ele aqui no TS.

    Fui

  • AH! O que está acontecendo em Borá?

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