Linha de montagem ultra-potencializada

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É consenso, entre os teóricos literários, que uma das principais características das obras de ficção científica é o grande poder modificador da tecnologia nas relações sociais, englobando meios de transporte, comunicação, apreensão do conhecimento etc. Ou seja, a tecnologia como instrumento sine qua non para a humanidade. Mas esse poder modificador, na ficção científica, deve igualmente conter extrapolações, caso contrário o gênero seria uma espécie de documentário sobre o mundo real.

"Admirável mundo novo" na versão de José Pedro Gomes
“Admirável mundo novo” na versão de José Pedro Gomes

O romance “Admirável mundo novo” (1932), do norte-americano Aldous Huxley, propõe, como o próprio título do livro já preconiza, a Terra completamente modificada, a começar pela contagem do tempo. Esta tem como referência, ao invés do nascimento de Cristo — tomando como base, é claro, todo o contingente cristão do Ocidente —, o nascimento de Henry Ford (1863-1947), o empresário norte-americano responsável pelo desenvolvimento da linha de montagem. Divide-se, pois, a contagem dos anos em antes e depois do nascimento de Ford, tornando-se abominável, no enredo, a mera citação do tempo anterior ao nascimento do empresário.

Nessa criação de Huxley, os seres humanos são gerados como produtos em linhas de montagem e, ainda enquanto embriões em tubos de ensaio, são submetidos ao contato com substâncias que determinam sua posição futura na sociedade, isto é, determinam, entre muitas categorias, se o embrião será um dirigente mundial ou um operário fadado a passar a vida toda no mesmo serviço. Além disso, o ensino escolar dá lugar à hipnopédia, também chamada de sleep-learning, que consiste na transmissão de informações através de gravações ouvidas durante o sono. E estes são apenas dois exemplos de modificações dentre os muitos que há no decorrer do livro, que é recheado por muita tensão e aventura.

Henry Ford ainda era vivo quando Huxley publicou o romance aqui comentado. Fica a curiosidade de saber qual foi a impressão do empresário ao ler essa obra. A título de curiosidade, algo semelhante ocorreu no século XIX, quando o simbolista francês Auguste Villiers de l’Isle-Adam publicou “A Eva futura” (1886), romance no qual o protagonista é o cientista norte-americano Thomas Alva Edison. Este gostou de se ver projetado literariamente.

P.S. A ilustração deste texto foi gentilmente cedida por José Pedro Gomes. Registro aqui meu agradecimento. Conheçam o site do autor:  http://tasfastas.blogspot.com/2006/11/ilustrao-antigos-admirvel-mundo-novo.html.

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1 Comentário sobre "Linha de montagem ultra-potencializada"

  • Rodrigo says:
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