nov 08
5
Celular novo
O Lucas achou que fazia bom negócio comprando aquele celular de última geração para Adriana, sua namorada.
— Adorei, Lu. Obrigada. Eu te amo.
Naquele aniversário de Adriana o casal abdicou dos prazeres carnais e demais divertimentos próprios dos relacionamentos amorosos humanos, para, no lugar disso, explorar os incontáveis recursos daquele aparelho que, entre muitas outras coisas, serve como telefone móvel. Antes de Lucas ir embora, Adriana mostrou para ele a música que ela tinha escolhido para servir como campainha quando Lucas telefonasse. A música era Meu bem querer, do Djavan, em versão cálida, muito tranqüila. O Lucas adorou a escolha. Meu bem querer, é segredo, é sagrado, está sacramentado em meu coração, e o que é o sofrer para mim, que estou jurado para morrer de amor. Nada mal, pensou o rapaz.
Tudo parecia ir muito bem. Lucas ligava e Djavan cantava. Só que Lucas, como todo homem pós-revolução sexual, era inseguro e vivia atormentado pelos fantasmas do passado de Adriana. O leitor mais sensível já deve ter percebido o subentendido da frase anterior. Entretanto, aí vai um dado importante para o leitor menos sensível: os supracitados fantasmas são os ex-namorados de Adriana. Dentre eles, o que mais atormentava Lucas era Hélio. Este nunca fora visto por Lucas, mas não havia importância nisso, pois o ciúme não depende da visão. Havia sim o ciúme pelo duradouro relacionamento entre Hélio e Adriana, relacionamento recheado de peripécias registradas em lembranças que a garota insistia em guardar numa bela caixa de papel estampado que Lucas descobriu um dia e ficou furioso. Mesmo assim, Adriana, eloqüente como de costume, argumentou sobre a preservação da individualidade num namoro e conseguiu apaziguar Lucas naquele momento. Mas o rapaz volta e meia se punha a pensar na intimidade que tiveram Adriana e o ex, no modo como Hélio percorreria com os dedos o corpo formoso da garota, no que ele dizia a ela, no como ela reagia a esses estímulos. Sim, Lucas era ciumento.
Os casamentos de antigamente se davam de maneira autoritária, Lucas sempre pensou indignado. Com dezesseis, quinze, catorze, ou às vezes ainda mais novas, as meninas eram prometidas a maridos que nem sequer conheciam. No entanto, após o fato que será narrado nas próximas linhas deste texto, Lucas desejou ardentemente ter nascido na época de seu avô e ter sido o único homem na vida de sua namorada, crente na afirmação periclitante de que todos os avôs do mundo fossem os únicos homens na vida de suas esposas.
Andando a beira-mar de uma cidade qualquer do litoral de qualquer estado brasileiro que tenha litoral, porque nem todo estado brasileiro tem litoral, andando, como se dizia, Lucas ouve o toque do celular da namorada. Eu quero me esconder debaixo dessa sua saia pra fugir do mundo, pretendo também me embrenhar no emaranhado desses seus cabelos, preciso transfundir teu sangue ao meu coração, que é tão vagabundo, me deixa te trazer um dengo pra num cafuné fazer os meus apelos. Disritmia, do Martinho? Para quem Adriana poderia escolher essa canção como campainha?
— Alô. Hélio! Fala. Tudo bem? O que que houve? Que chato isso, Helinho.
Adriana se entretinha na conversa com o ex e Lucas parecia ter sido atacado por um tsunami ao ouvir a palavra Helinho.
— Me liga na semana que vem pra gente conversar mais sobre isso tudo, tá? Beijo. Eu também te adoro. Tchau. Era o Hélio, Lu.
— Ah, sim. Tudo bem com ele?
— Mais ou menos. Ele anda com uns problemas lá e quer conversar.
Lucas e Adriana resolveram dar um passeio de escuna, um desses barcos para vinte pessoas aproximadamente que vão cem metros mar adentro e depois voltam para a praia. Lucas, todavia, se mostrou entediado com o passeio e quis fazer outra coisa para passar o tempo.
— O celular que eu te dei tem jogo, não tem?
— Tem sim, mas você vai querer jogar agora, no meio dessa paisagem maravilhosa?
— Vou. Não estou curtindo muito esse passeio.
— Você tem cada uma.
Então, Adriana passou seu celular a Lucas e este jogou o aparelho ao mar. Comedida como sempre, a garota apenas perguntou:
— Pra que isso?
— Porque Disritmia é a pior música do Martinho da Vila.