nov
12
2008
4

O processo de Scarlet Davis

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A atriz Scarlet Davis era tão rica que tinha até uma ilha particular, e era esse o único lugar do mundo onde se sentia completamente à vontade, livre do assédio de fãs e produtores. Suas atuações impecáveis lhe renderam vários prêmios, fama e dinheiro, muito dinheiro. Sempre que se sentia sufocada demais com a rotina dos grandes centros urbanos, Scarlet recorria a sua ilha. Esta fica no Extremo Oriente e foi batizada pela proprietária como Sudnimô.

Certa vez, ao retomar o trabalho após longa estada na ilha, a atriz se impôs o dever cívico de colocar na justiça mais um processo contra algo terrível que lhe haviam feito, pois, do nada, muitas pessoas começaram a rir de Scarlet quando a viam na rua. Por quê?

A atriz só foi entender ao ver suas partes pudendas expostas involuntariamente numa infinidade de sites da internet. Como?

Acontece que certo recurso de internet que captura imagens da Terra ao vivo via satélite flagrou momentos de descontração de Scarlet Davis em Sudnimô, momentos esses em que a atriz passeava nua pelas praias de sua propriedade. Logo, milhões de pessoas ao redor do mundo passaram a conhecer pormenores corporais que Scarlet sempre se esmerara tanto em omitir.

Scarlet perdeu o processo, pois a empresa dona da tecnologia que fotografou a intimidade da atriz alegou que esse é um recurso-chave para a segurança mundial e que as fotos da nudez da moça foram meramente acidentais, haja vista o projeto de proteção ambiental que previa o mapeamento fotográfico da região ao redor de Sudnimô.

Como dizia o sábio escritor Alaor Clapteen, melhor perder a vergonha a perder a paciência.

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Written by Renato Capella in: Contos |
nov
05
2008
9

Celular novo

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O Lucas achou que fazia bom negócio comprando aquele celular de última geração para Adriana, sua namorada.

— Adorei, Lu. Obrigada. Eu te amo.

Naquele aniversário de Adriana o casal abdicou dos prazeres carnais e demais divertimentos próprios dos relacionamentos amorosos humanos, para, no lugar disso, explorar os incontáveis recursos daquele aparelho que, entre muitas outras coisas, serve como telefone móvel. Antes de Lucas ir embora, Adriana mostrou para ele a música que ela tinha escolhido para servir como campainha quando Lucas telefonasse. A música era Meu bem querer, do Djavan, em versão cálida, muito tranqüila. O Lucas adorou a escolha. Meu bem querer, é segredo, é sagrado, está sacramentado em meu coração, e o que é o sofrer para mim, que estou jurado para morrer de amor. Nada mal, pensou o rapaz.

Tudo parecia ir muito bem. Lucas ligava e Djavan cantava. Só que Lucas, como todo homem pós-revolução sexual, era inseguro e vivia atormentado pelos fantasmas do passado de Adriana. O leitor mais sensível já deve ter percebido o subentendido da frase anterior. Entretanto, aí vai um dado importante para o leitor menos sensível: os supracitados fantasmas são os ex-namorados de Adriana. Dentre eles, o que mais atormentava Lucas era Hélio. Este nunca fora visto por Lucas, mas não havia importância nisso, pois o ciúme não depende da visão. Havia sim o ciúme pelo duradouro relacionamento entre Hélio e Adriana, relacionamento recheado de peripécias registradas em lembranças que a garota insistia em guardar numa bela caixa de papel estampado que Lucas descobriu um dia e ficou furioso. Mesmo assim, Adriana, eloqüente como de costume, argumentou sobre a preservação da individualidade num namoro e conseguiu apaziguar Lucas naquele momento. Mas o rapaz volta e meia se punha a pensar na intimidade que tiveram Adriana e o ex, no modo como Hélio percorreria com os dedos o corpo formoso da garota, no que ele dizia a ela, no como ela reagia a esses estímulos. Sim, Lucas era ciumento.

(mais…)

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Written by Renato Capella in: Contos |

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