
É consenso, entre os teóricos literários, que uma das principais características das obras de ficção científica é o grande poder modificador da tecnologia nas relações sociais, englobando meios de transporte, comunicação, apreensão do conhecimento etc. Ou seja, a tecnologia como instrumento sine qua non para a humanidade. Mas esse poder modificador, na ficção científica, deve igualmente conter extrapolações, caso contrário o gênero seria uma espécie de documentário sobre o mundo real.

“Admirável mundo novo” na versão de José Pedro Gomes
O romance “Admirável mundo novo” (1932), do norte-americano Aldous Huxley, propõe, como o próprio título do livro já preconiza, a Terra completamente modificada, a começar pela contagem do tempo. Esta tem como referência, ao invés do nascimento de Cristo — tomando como base, é claro, todo o contingente cristão do Ocidente —, o nascimento de Henry Ford (1863-1947), o empresário norte-americano responsável pelo desenvolvimento da linha de montagem. Divide-se, pois, a contagem dos anos em antes e depois do nascimento de Ford, tornando-se abominável, no enredo, a mera citação do tempo anterior ao nascimento do empresário. (mais…)